Maat Produções

Transatlânticas

Longa-metragem híbrido (doc/fic) - 90’

Logline: O desaguar de duas mulheres no oceano Atlântico.

Sinopse: Transatlânticas aborda a questão da condição diaspórica, através de uma perspectiva feminina. Alternando cenas reais com a ficção, acompanhamos a saga de duas personagens: uma brasileira e uma sul-africana que decidem refletir sobre as suas trajetórias e investigar o processo de tomada de consciência do que é ser mulher negra numa sociedade mestiça.

Cartaz do Transatlânticas

Textos sobre o processo de escrita de roteiro: 

Aviso: esse texto, escrito em forma de crônica, não visa narrar fatos sobre o processo criativo em ordem cronológica. Ele consiste mais em um acesso à minha fragmentada memória, sobre fatos que marcaram o processo de escrita do meu primeiro roteiro de longa-metragem, como uma forma de refletir sobre os caminhos percorridos. Espero que apreciem essa viagem!

Pois bem, decidi escrever sobre os caminhos que percorri durante o processo criativo deste filme, a fim de partilhar, criar pontes e diálogos para a reflexão do processo de escrita de roteiro, cujo tema é tão intenso e profundo pra mim. 

Um outro fator que me fez partilhar, foi imaginar que, de alguma forma, eu poderia contribuir com os processos criativos de outras/os roteiristas, já que não há fórmulas para a criação.

Acho a partilha enriquecedora, pois ela nos traz insights, nos faz perceber erros e acertos antes não vistos, e assim a gente vai lapidando a obra e se fortalecendo nessa caminhada tão única, que é a de contar histórias. 

No início do processo, eu, cartesiana toda, refletia muito sobre os métodos e formatações de escrita, não para segui-los, mas sim justamente para fugir deles. Acho que é um desejo comum àquela ou àquele que escreve: criar histórias únicas fugindo das normas do mercado audiovisual. Porém, quanto mais eu refletia sobre o método, mais bloqueios criativos surgiam.   

Além de estar muitas vezes travada diante do tema, com fortes referências de experiências pessoais, buscava por uma forma, um dispositivo que me ajudasse a contar a história de uma forma interessante. Mesmo que eu estivesse desapegada das fórmulas, eu me via sem ter como não segui-las, uma vez que a necessidade em me comunicar e ser entendida predominava. Me perguntava: será que as pessoas vão entender esse evento como o percebo? Será que estou sendo precisa na minha abordagem? A busca pelas respostas era vã. Atrelado a isso tinha uma enorme crise de insegurança de uma mulher preta, que sempre gostou da escrita, mas que, como tantas outras pretas, não se via como roteirista. 

Era a minha primeira viagem no mundo do roteiro de longa-metragem, cujas referências eram todas empíricas: tudo era baseado, ou no vivido, ou no sentido. Ou seja, não tinha nada pautado na razão cartesiana, nas fórmulas hollywoodianas e isso era um grande desafio para essa que vos escreve.

Para nós, mulheres negras, sobretudo as da minha geração que cresceram sem muitas referências negras, sem letramento racial num país extremamente racista, se posicionar é um ato que gera muitas inseguranças, mesmo que elas não estejam tão aparentes aos olhos dos outros. Foi necessário me regar com doses de amor próprio, pra vencer esse mar de inseguranças e seguir costurando essa história. 

Essa é a razão pela qual a partilha é tão importante. Ao escrever sobre esse processo desafiador, posso aliviar o peso dele, pois muitas outras pessoas passam a carregá-lo comigo. Sem falar que compartilhar a experiência ajuda outras mulheres negras a pegar outros caminhos, de menor rigidez consigo mesmas. E isso também torna a experiência mais leve: pensar que eu posso estar aliviando o fardo de outra mana do futuro, do passado ou do presente.  

Pus-me a pesquisar e a rascunhar certos fatos da minha trajetória, pensando quais seriam dignos de estar no filme.

À época eu trabalhava no audiovisual, num setor tão rígido e formal, que até esquecia que, de certa forma, estava contribuindo para uma realização artística. Eu tinha uma jornada dupla no mundo da administração e da produção executiva: meu dia era cheio de planilhas, orçamentos, controles, pagamentos, contratos, licenças, impostos, etc. 

Porém, houve momentos que os diretores (para os quais eu prestava serviço), me convidaram para assistir ao primeiro corte e opinar sobre as obras. Esses momentos eram mágicos.

Aos poucos fui percebendo que tinha domínio  técnico, graças à formação em radialismo e TV pela UFPE e a uma vida como espectadora de filmes e séries. 

Meu envolvimento com os filmes para além da produção era tamanha, que certa vez numa ilha de montagem fui convocada a realizar o meu próprio filme. Estava com uma amiga querida acompanhando de perto a finalização de um curta-metragem, eu como produtora executiva, e a amiga me olhou profundamente e perguntou: “Dani, quando você vai dirigir o seu filme?”

Essa pergunta ecoou na minha mente por um certo tempo. Aos poucos, fui me dando conta de que o lugar da burocracia não servia mais para mim. Então comecei a escrever o meu próprio projeto de reflexão sobre o cinema, os espaços que nos são concedidos nessa hierarquia do audiovisual e assim foi surgindo esse projeto, de uma forma bem experimental. 

Como eu sempre tive uma inclinação à pesquisa e à academia, o projeto parecia mais um artigo científico do que uma proposta criativa. Para vocês terem uma noção, o título desse projeto era “Corpus Infinitum: Experimento nº1”. Hoje eu vejo o quão contraditório é esse título, que se divide entre a rigidez acadêmica, que busca justificar tudo – e isso era o meu ser procurando uma fórmula para se expressar artisticamente -, ao passo que o experimento me permitia trazer alguma mudança e inovação. 

Ao passar pelo meu primeiro laboratório criativo, as fichas começaram a cair: os avaliadores pediam por uma linguagem mais leve e simples, menos acadêmica, que se comunicasse com qualquer pessoa que se dedicasse à leitura do texto. Eis que veio a sugestão da mudança de título: “Do lado de cá do Atlântico”, já que eu estava refletindo sobre as consequências da diáspora africana aqui no Brasil. 

Esse título me acompanhou por muito tempo, mesmo eu não sentindo profundamente que seria o título ideal. É complexo como a gente segue acompanhando coisas, pessoas, projetos, que não nos tocam ou preenchem cem por cento, né? Eu demorei um bom tempo pra perceber essa realidade, mas estou bem com isso; acho que cada obra tem o seu tempo de florescer e esse foi o caminho que a minha percorreu, até chegar aqui, ao conceito de “Transatlânticas”, que define perfeitamente a proposta do filme em mergulhar na profundidade de duas mulheres negras, que refletem sobre suas trajetórias e que estão separadas pelo mesmo oceano que as conecta: o Atlântico.  

Quis então buscar a definição desse espaço, que não é só físico, e que separa, mas, ao mesmo tempo, aproxima essas duas mulheres.

A.tlân.ti.co: adjetivo relativo ao oceano Atlântico ou aos estados por ele banhados, ou seja, as costas atlânticas.

A referência a esse oceano no título da obra se dá por ele ter se tornado o local de contato e circulação de pessoas procedentes dos continentes africano, americano e europeu. O Atlântico não é apenas o local de contato entre as pessoas, mas também das bagagens delas: suas ideias, memórias, valores, tradições, línguas, políticas, culturas. Nele estão impressas (energeticamente), todas essas características dos povos que transitam sob suas águas. A ideia de Atlântico, pois, está diretamente ligada à diáspora dos povos africanos, já que, por meio desse oceano, foram feitas travessias (in)voluntárias desses povos.

Então eu pensava em como conectar essas personagens, que intuitivamente já estavam alinhadas em suas reflexões diante do mar. Num exercício de desaguar, onde elas acessaram memórias afetivas e refletiam sobre elas, questionando o seu lugar no mundo, numa sociedade racializada. Essas mulheres que estavam querendo definir o ethos feminino negro, queriam responder à pergunta: o que é ser uma mulher negra em Recife, no Brasil? Ou o que é ser uma mulher negra na Cidade do Cabo, na África do Sul?

Até então as reflexões sobre a diáspora, sobretudo no audiovisual, eram feitas sob a perspectiva dos homens negros, mas não tangiam as questões femininas de como conciliar relações amorosas e familiares com o trabalho artístico. Como criar uma obra de arte educando uma criança? Como criar pertencendo a um setor técnico do audiovisual? Essa última pergunta era tão latente em meu pensamento, que era sobrecarregado pelas obrigações contratuais, de impostos, de multas, de prazo de entrega de prestação de contas. Era – e ainda é -, muito custoso criar nessas condições. 

Eu me sentia tão esmagada pelas pressões da produção executiva, que ao fim do dia estava exaurida e sem muito estímulo para pesquisa ou escrita. Com o tempo fui encontrando alento nestes momentos de desenvolvimento do projeto e conseguindo reunir forças para escrevê-lo com o coração, mesmo quando a mente e o corpo estavam cansados. 

Passei então a ter uma abordagem mais leve, de escrita fluída, e aprendi a pedir ajuda: participando de laboratórios, escutando atentamente as consultorias de profissionais experientes, fazendo pitchings e encontrando parceiros e parceiras interessados em realizar o filme. 

E assim, a cada avanço que o projeto dava, era invadida por uma alegria, que me indicava que eu seguia pelo caminho certo. Essa emoção passou a me orientar, a equilibrar mais o tempo, a me dedicar cada vez mais à tessitura desse e de outros projetos e assim eu consegui a aprovação de um edital de desenvolvimento de roteiro de filme de longa-metragem. 

Dedicar tempo para a escrita sendo remunerada era um sonho que se tornava realidade. Dessa forma consegui pesquisar, articular parcerias para leitura dos textos e do projeto, me conectar com produtoras parceiras para desenvolvê-lo, encontrar a personagem ideal do lado de lá do Atlântico e seguir desenvolvendo a história. E assim, esse projeto foi tomando corpo e vida, de uma forma lenta, porém robusta. Eu e todas as minhas crises de inseguranças, que no fundo são as necessidades de atender ao ritmo do capital, ia me fortalecendo na lentidão de construção dessa obra que está apenas começando.

Essa jornada me fez aprender que o tempo de maturação da obra é importante para o desenvolvimento dela, que a escuta atenta dos que se interessam pela sua obra possui dicas valiosas e que o trabalho feito com amor sempre floresce. 

Então, meu conselho para as roteiristas pretas de primeira viagem é que sigam o caminho que pulsa em seus corações, pois ele certamente vai te revelar o caminho que você e seu filme precisam trilhar.